- Nº 1751 (2007/06/21)

Do alheamento<br>do conhecimento científico

Argumentos

Parece que uma das razões que determinam o alheamento de grande parte das pessoas em relação ao conhecimento científico - e à primeira vista tal fenómeno poderá parecer tanto mais estranho quando, de um modo geral, se vive imerso num ambiente que nos leva a cada passo a empregar aparelhos e máquinas, e a aceder a serviços, só possíveis de aí estarem devido aos avanços científicos havidos, e essas mesmas pessoas não terão dúvidas sobre este facto -, dizia, parece que uma razão das razões para tal alheamento terá a ver com a circunstância de, para além, não ser necessário possuir conhecimento científico para serem utilizados os resultados de tecnologia, dos produtos - bens e / ou serviços -, que as mesmas podem angariar se dispuserem dos meios financeiros para tal suficientes, estarem geralmente essas pessoas convencidas que o esforço para penetrarem nas «especializadas» veredas científicas adentro requer não só uma enorme disponibilidade - e têm bastante razão -, mas, sobretudo, uma queda para as ciências e para os números que ou viria com os genes ou então nada a fazer - e sobre esta causa não terão razão.
Claro que, de entre os das ciências (os cultores das ciências duras, das ciências naturais, mas também os das ciências das áreas sociais e humanas) e os dos números (das matemáticas) haverá também quem esteja convencido de tal verdade - isto é, se não tens os genes necessários, melhor é nem tentares; vê-se logo nos primeiros anos do Básico quem tem jeito e quem não tem, não é? - ainda os mesmos convencidos da preponderância da herança genética. Além disso, acreditam que só poucos, dos quais eles fazem naturalmente parte, conseguem ter tais inteligências, eles os iluminados, os eleitos.
Mas também há, de entre os das ciências e dos números - entre os quais está o escrevente destas linhas -, os que pensam ser necessário que todos adquiram tais conhecimentos, cada vez mais necessários ao caldo de Cultura de cada um. E que as pessoas não precisam de genes especiais para conseguirem entrar pelas ciências e pelos números; basta-lhes possuírem os genes que as pessoas em geral detêm nas suas células (não, os genes não são um tipo de células do sangue como, se bem me lembro, o Professor Marcelo chegou um dia a referir naquelas suas charlas na televisão; ainda bem, tanto para os telespectadores como também para o seu próprio bem, que o Professor já se deixou de semelhantes incursões pelos retorcidos meandros da Ciência & Tecnologia).
Ora, mesmo estando de acordo que o argumento da falta de jeito ou de «inteligência» específica para as ciências e para os números é falso, ou que, pelo menos, é uma argumento que não devia fazer sentido ao nível das matérias próprias dos nove anos do ensino básico, a verdade é que o alheamento de grande parte de todos nós começa regra geral logo nos tempos do primeiro ciclo, no tempo das primeiras abstracções relativas às contas, no tempo (passado) das tabuadas. E mesmo caindo em concretizações, nos problemas de contas nas mercearias, das capacidades de vasilhame - quantos litros?; de distâncias percorridas - quantos quilómetros? e quanto tempo se leva no percurso, conhecendo-se a velocidade da deslocação?; de cálculos de percentagens e descontos - qual o preço depois do desconto de 15%?; eu sei lá que mais, a nada se comove o tal alheamento de tantos, o desejo do aluno que tal tortura se acabe uma vez tendo estudado o modo de responder às avaliações a que é sujeito e tendo conseguido ser aprovado, ou seja, safar-se.
Mais tarde, por exemplo, enquanto clientes confiam que o lojista que lhe faz o desconto lhe comunica o preço correcto, que não o aldraba, porque o próprio, mesmo desunhando-se, nem sequer sua por todos os poros na busca do resultado - não acredita poder lá chegar. Também ouve os números da economia e do desemprego, de adesões às greves, os milhões ou os milhares de milhões de lucros na Banca, dos «demasiados» custos da Educação, aceitando a mensagem implícita nos comentários dos governos/comunicação social - as autoridades por definição são credíveis. Por outro lado, as mensagens científicas cosmogónicas e biológicas, que transportam as visões da sua inserção no Universo e na Vida também não o captam - continua ensarilhado nas narrativas tradicionais como referência para a sua visão do Mundo.
A contradição aparente é, pois, a aquisição de conhecimento científico parecer não empolgar muitos, mesmo sendo cada vez mais indispensável à sua emancipação, à sua liberdade.

Francisco Silva